HISTORIA DA CAUSA
Carraud
1. A investigação das causas e a suficiência das razões
A presente obra é uma contribuição à história do problema da causa, de Suarez a Leibniz. Tem por objeto avaliar uma tese da filosofia moderna que reconhece à causalidade o conferir a inteligibilidade. Essa pretensão se resume em uma fórmula: causa sive ratio. Com a qual a razão da causa, "ratio causae", pode doravante compreender-se segundo o genitivo subjetivo, como razão da causa, uma razão que dá conta da causa. A tarefa da racionalidade incumbe assim principalmente, senão exclusivamente, à causalidade. A causa permite dar razão da coisa: do fato que ela seja, do porquê ela é, disto que ela é e de suas mudanças. O que supõe outra tese de que a causalidade só confere a inteligibilidade dirigindo-se a todo ente e não apenas ao ente natural-, tornando-se assim inteligível. Desde então, o problema da causalidade não é um problema particular em filosofia, mas vai de par com ele a universalidade de seu objeto. Com efeito, se não há nada que não participe de algum modo da causalidade, desde o momento em que a ratio causae é universal, a causa se mostra não somente o conceito mais operatório da nova física, mas concerne propriamente e em primeira clave a metafísica, aqui conquistando uma amplitude e uma dignidade sem iguais.
1. Da investigação das causas à lei da causalidade: a questão do fundamento. Na história do problema da causalidade, as grandes direções parecem sempre bem demarcadas, que conduzem de Aristóteles a Leibniz, de Suarez a kant - e os separam. A questão aristotélica que interrogava o princípio do ente ou da essência foi substituída pela tentativa de explicar o ser do ente por outro ente. Daí o conceito medieval de existência, de que testemunha uma definição canônica de Richard de Saint-Victor: Quid est enim exsistere nisi ex aliquo sistere, hoc est substantialiter ex aliquo esse? Ex aliquo: ora, é logo a partir da causalidade - e não mais somente da origem - que a existência se deixa interpretar, ao ponto que todo o curso do que chamamos escolástica sendo percorrido, até sua época moderna, Suarez responde a Richard: Quid enim aliud est existere, quam extra suas causas esse? (que é com efeito existir, se isto não é ser fora de suas causas?). Com relação à determinação do ser do ente enquanto efeito (efetuado, causado), isto é, à interpretação da existência a partir da causalidade, impôs-se, ao termo desses quatro séculos e meio de escolástica, o privilégio da eficência, pela qual os entes existem. A causalidade estendeu definitivamente seu império sobre a existência, que domina a eficiência. A carta desse império foi traçada, ela irrompe nas Disputationes metaphysicae de Suarez, o cartógrafo da filosofia moderna. Mas ao por um conceito comum de causa descrevendo o primado da causa eficiente sobre as outras causas, Suarez, no entanto, estabelece sua afirmação de acordo com as antigas coordenadas do aristotelismo, mesmo que sejam difíceis de reconhecer. Com Descartes a dominação da eficiência se faz absoluta. Tendo feito provisão dos materiais suarezianos, e munido de seus desígnios, Descartes pode derrubar o palácio da causalidade e trabalhar para a fundação do novo - embora Descartes possa ter significado sua busca literalmente nos mesmos termos de Aristóteles: La recherche des première causes, c'est-à-dire des principes. Carta-Prefácio AT IX-2, 2, 17-18. Descartes retoma Metafísica A, 1, 981 b 28-29. Todo o começo desse segundo parágrafo da Carta se apresenta além disso como um mosaico de fórmulas emprestadas de Alfa 1 e 2. mas, como teria dito Leibniz, a proposição "a busca das primeiras causas, ie, dos princípios" é diversificada pelo acento: para entendê-la no sentido cartesiano, são as primeiras causas que se deve sublinhar. Quanto aos princípios, suas duas condições mergulhar-nos-ao ex abrupto no coração da doutrina, até o soli sapienti Deo cartesiano. Assiste-se entao ao advento de um conceito de causa único e inultrapassável - a eficiência - e à redução corolária de toda modificaçao física ao movimento local, que nao deve por si mesmo mais nada à obsoleta causa motriz nem ao par ato e potência. é que, para Descartes, a eficência somente é doravante operadora de inteligibilidade, em física assim como em metafísica. A investigaçao das causas nao se entende mais entao senao como da causa eficiente, que basta somente para dar razao.
Mas essa produçao de inteligibilidade resta ela mesma ininteligível, que remete à onipotência incompreensível de quem exerce a causalidade - aí compreendido na direção dele mesmo. Que a eficiência não assegure a inteligibilidade senão permanecendo ela própria ininteligível, eis o que os pós-cartesianos não cessarão de recusar: Spinoza, pondo que a ordem e a conexao das coisas sao as mesmas que a ordem e a conexao das ideias; Malebranche, fazendo da causa ocasional uma razao ineficaz e deslocando para Deus toda eficácia causal, ela mesma submetida à sabedoria; Leibniz, elaborando o princípio de razao suficiente. Doravante, é a causalidade que é submetida à racionalidade: assim se define, em oposiçao a Descartes, o pós-cartesianismo. à nihil est sine causa, na dupla forma do nihil fit sine causa escolástico e do nihil est in effectu quod non fuerit in causa cartesiano se substitui o nihil est sine ratione. O princípio de razao suficiente suplantou aquele da causalidade. Logo poderao aparecer Hume e kant. Hume radicaliza o ocasionalismo e nega todas as relaçoes (connexions) reais da causa e do efeito em proveito de conjunções constantes em nosso pensamento: a causalidade se deve à imaginação, não à razão, incapaz de dar razao disso. Com Kant, o princípio de razao suficiente como fundamento de toda experiência possível torna-se a segunda analogia da experiência, destinada a fundamentar transcendentalmente a lei da causalidade - causalidade tornada uma categoria, isto é, um conceito puro do entendimento.
A forma pela qual acabamos de traçar sumariamente as direçoes e nomear certos momentos cruciais da história longa do problema da causalidade deixa já prever os contornos do período que vamso estudar, pois nela esboça-se a problemática própria, que é a do fundamento. Deixando a história antiga e medieval disto que Heidegger nomeia a precedência da aitia sobre a arqué, começada desde Aristóteles, nosso trabalho começará com efeito quando aparece claramente que a causalidade emparelhou-se definitivamente da questao do fundamento (Suarez); terá por centro o momento em que a época moderna, em busca de uma estabilidade fundacional, e nao reconhecendo mais na questao do fundamento quanto naquela do funda-mento, entendido segundo a comparaçao da fundaçao e do desígnio, pensa a existência a partir somente da causalidade eficiente (Descartes). Acabar-se-á após tomar ato da decisao ontológica pela qual Leibniz, tendo exigido a suficiência desse fundamento e pronunciado a insuficiência da eficiência, confere ao princípio de razao suficiente ser princípio de existencificaçao. A causa é entao tornada ratio realis e a razao somente fundamento: o fundamento e a razao, diz notavelmente o Discurso de Metafísica, o fundamento, isto é, a razao.
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